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O Pentágono enfrenta o aquecimento global

 

Autor:  veja.abril.com.br, 14/10/2010

Date:  10/16/2010

 

Marines no Afeganistão equipados com painéis solares. Usinas de vento na base naval de Guantánamo. Especialistas da Marinha dedicados a estudar o degelo do Ártico. A dependência de energias poluentes, uma questão que ainda está em discussão na Washington política, é considerado um assunto estratégico no Pentágono. 

A mudança climática figura em lugar de destaque no último relatório quadrienal da Defesa, um documento do Pentágono que desenha as ameaças e estratégias dos próximos anos e décadas. O relatório, apresentado no começo do ano, reconhece o impacto que o aquecimento global terá no Pentágono. 

Impacto, em primeiro lugar, geopolítico: a mudança climática, segundo o relatório, "contribuirá para a pobreza, a degradação ambiental e ao maior enfraquecimento de governos frágeis". Os responsáveis da Defesa também advertem que o aquecimento global vai provocar "escassez de água e alimentos, aumentará a propagação de doenças e pode incitar ou exacerbar migrações em massa".

"Ainda que a mudança climática por si só não cause conflitos pode atuar como acelerador da instabilidade", diz o documento. 

Inundações massivas ou secas em outros pontos do planeta podem obrigar as forças americanas a intervir em missões humanitárias. Washington preocupa-se com países onde as condições climáticas representem um fator a mais de instabilidade, como Sudão e Somália.

Como registrou numa audiência no Senado Americano em 2009 Kathleen Hicks, uma alta funcionária do Pentágono, a mudança climática "tem o potencial de acelerar o fracasso de estados em alguns casos, e também pode conduzir ao aumento da insurgência quando governos frágeis não conseguem responder aos seus efeitos". 

Além da ameaça geopolítica, a mudança climática gera preocupação interna no Departamento de Defesa. Um aumento do nível dos oceanos colocaria em risco mais de 30 instalações militares americanas situadas em regiões costeiras. A Marinha dispõe de um grupo de trabalho encarregado da mudança climática e responsável, entre outros assuntos, pelo estudo do Ártico. 

"Com o avanço da ciência, com mais e mais detalhes sobre o que é provável que aconteça, e sobre onde e quando, será mais fácil para o Departamento de Defesa quantificar o problema e saber o que ele significa para missões militares", disse meses atrás Christine Perthemore, especialista do Centro para a Segurança Nacional Americana, o laboratório de ideias especializado em questões militares.

A redução do uso de energias poluentes também obedece à necessidade de diminuir a dependência de países instáveis e, por vezes, rivais dos Estados Unidos. A ideia, um dos eixos do discurso do presidente Obama, é aplicável às Forças Armadas. Os visitantes da base de Gantánamo, na ilha de Cuba, costumam ser surpreendidos pelas usinas eólicas nas colinas. A base, isolada de Cuba, gera sua própria energia. 

O caso mais preocupante para Washington é a situação do Afeganistão, onde os soldados e fuzileiros americanos dependem do provimento de petróleo do Paquistão por estradas que sofrem repetidos bloqueios e assaltos. 

No final de setembro, uma companhia de fuzileiros foi a primeira a ir à zona de guerra com painéis solares, luzes de baixo consumo e carregadores solares para computadores e equipamentos de comunicação, segundo o New York Times. O jornal explicou que o combustível responde por entre 30% e 80% da carga dos comboios americanos que entram no Afeganistão, "o que aumenta os custos e os riscos". 

A eficiência energética, segundo o relatório do Pentágono, "pode reduzir o número de forças dedicadas a proteger linhas de suprimento energético que são vulneráveis diante de ataques assimétricos e convencionais e interrupções". Estes militares poderão focar-se na guerra, e o Pentágono, diante de uma política de redução de gastos supérfluos, poderá destinar dinheiro a outras missões, ou simplesmente economizá-lo. 



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